Papai e mamãe
Gostaria
que vocês chegassem um pouco mais perto de mim.
Ao menos agora, pois, mesmo assim, talvez vocês, novamente, poderão não
entender, ou não me ouvir.
Sinceramente,
não os culpo de nada, mas, alguma coisa eu preciso deixar registrada.
Fui
vítima da última "overdose". E, essa, só pode ser atribuída à
minha imprudência, à minha inconseqüência, ou à minha falta de caráter.
Poucos
são, os que dizem, que esses defeitos são acumulados em um só; na minha
falta de educação.
A
coisa é muito difícil, sabe: vocês é que me educaram. Se eu concordasse com
isso, estaria atribuindo a vocês o meu fracasso, a minha derrota. Sim,
porque no estado em que me encontro, fui derrotado.
Eu
disse que esta foi minha última "overdose", pois ela, sem dúvida,
inutilizou-me para sempre. As outras "overdoses" foram de impaciência,
de descrédito, de falta de atenção e eu as suportei. Todas me atingiam a
alma, e, infelizmente, devem ser atribuídas a vocês. Vocês pensam que não me
machucaram. Não se tocaram, de que estas me levaram àquela.
Já
ouvi alguém dizer "...que os filhos não pediram para nascer... "Logicamente,
quem assim pensa, quer externar algum sentimento de piedade para com os filhos.
No meu caso, posso lhes garantir, eu pedi para nascer. Melhor;
eu quis nascer. Não sei se disputei a minha aurora. Não me lembro e nem
poderia lembrar.
O
que sei é que, de repente, me senti aconchegadamente instalado, comendo e
dormindo, quando bem queria, e envolvido por um silencioso carinho, que nem era
preciso abrir os olhos para saber se era real.
Creio
que pedi para nascer e fiquei contente com a minha opção. Infelizmente, pensei
que tudo se resumiria a nove meses. Depois
o desespero. Não sabia que as coisas eram como me foram colocadas.
Senti
que vocês sempre estiveram preocupados comigo. Compreendo que vocês fizeram
tudo para que eu tivesse o melhor. Brinquedos
- caríssimos - ganhei, mas - agora serei bem sincero - eu não gostava deles.
Se não: por ter que mantê-los inteiros, em virtude do preço, era porquê, o
que eu queria, era bem mais barato.
Eu
ficaria muito mais satisfeito, com os dedos de vocês por entre os meus cabelos. Mesmo
que fosse, enquanto eu estivesse dormindo; para não pensarem que eu os
subjugava.
Vocês
me deram tanto e eu fiquei acomodado.
Depois,
talvez por isso, fui classificado como vagabundo.
Pensando:
lembro que vocês insistiram muito para que eu fosse criado na Graça de Nosso
Senhor Jesus Cristo e algumas vezes fui chamado de "desgraçado".
Meu
comportamento não servia. Fui miserável, sem vergonha, pilantra, drogado... Todos estes adjetivos eu lembro. Talvez por
tê-los escutado várias vezes. Ao
contrário, não lembro de uma palavra de carinho, de um elogio, ou de uma
atitude de vocês, em minha defesa. Vocês
perguntavam: Onde esteve? Com quem andou? Por que chegou tão tarde?
Muito
embora com palavras diversas, talvez com um silêncio, minha resposta íntima
era sempre a mesma: Eu não agüento mais esta vida Sabem
por que ? Porque eu gostaria muito de me divertir com vocês Na
minha casa nunca houve alegria. Vocês sempre gostaram de citar os meus colegas
como exemplos. Eu não podia mencionar os pais deles como modelos, pois eu seria
ingrato.
Eu
estava todo atrapalhado e vocês nem desconfiaram.
Agora,
chego à conclusão, de que o egoísta fui eu. Eu queria ser convidado para me
divertir com vocês, sem saber que a vida de vocês também não era nada
divertida.
Uma
coisa que me preocupava sempre, era o " porquê ", de eu ser, ao mesmo
tempo, orgulho e estorvo.
Tudo
agora passa na minha cabeça, como se fosse um vídeo.
Ouvi
tanto de vocês que estava errado e venho pedir perdão para poder descansar
sossegadamente, acho que vou morrer. Façam
alguma coisa para que eu sinta, que vocês me perdoaram.
Eu
não estou escutando as suas vozes:
Papai!!!
Papai!!! Mamãe!!! Papai!!! Mamãeeee !!!
Não
ouço mais nada... Vocês
estão aqui? Vocês
não gostaram do que eu disse? Por
favor desculpem-me... Desta
vez eu não estou mentindo! Aliás,
eu nunca menti. Vocês
é que nunca estiveram presentes para ouvir a minha verdade. A
minha verdade é uma só !Eu
amo vocês ! Eu
seria o ser humano mais feliz do universo, se tivesse sido vítima de uma "overdose"
de AMOR.
Um beijo.
Monólogo
de um rapaz moribundo, vítima de uma overdose de substância química qualquer. Texto imaginário do advogado Gilberto Franco Silva Jr. - Santos - SP,
pela convivência com seres humanos vitimados por todos os tipos de drogas.
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